segunda-feira, 27 de julho de 2020

A minha paixão

Como é isso
de sentir paixão?
Depois de uma vida intensa,
de encontros, desencontros,
fantasias e sonhos largos ...
De repente, uma paixão
nova ... sem igual ...

As horas têm outro tempo,
as ruas borbulham flores,
o céu é multicor,
e a noite tem som de valsa...

Os olhos se enamoram ...
... choram ... se inebriam
da simples vida ... se encantam...
A vida flui de todos os lados
e ruma para onde vão as ideias.

E para onde vão ideias,
planos, desejos?
Para que lado vai este humano
sonhador, exagerado,
modesto do presente
e nobre dos sonhos?

Para onde vão antigas verdades,
certezas, dúvidas ... prazeres?
Tudo renasce da paixão,
tudo revira e se ajusta,
em parafuso e nas calmarias.

Como é isso de sentir paixão?
Pouco importa!
O sol me acena da janela,
e eu o sigo,
obedeço ...
Até onde ele quiser!


terça-feira, 2 de junho de 2020

REVIRANDO


Desaba a vida
na noite.
Frio e canções
embebidos de solidão.

Uma nota
me atira
ao tempo que vivi ...

Uma cerveja,
uma luz distante,
e a noite
a revirar

meu mundo:
onde andará
o calor desenhado
há décadas?

sexta-feira, 22 de maio de 2020

ANDANTE


Pobre vida! As pedras do caminho
vêm pesadas , solapam o tempo.
E esse errante, a caminhar sozinho,
sem ter rumo, estranha seu momento

triste ... Porém segue e vai em frente.
Sua estrada aqui anda sem marcação.
Caminha. Nada resta na mente,
a não ser seu passo sem razão?

Ou talvez carregue solidão,
pensamentos sobre o que já foi...
Quem sabe sinta a vida que dói,
e o sonho que lhe escapou das mãos.

Na verdade, parece seguir
sem pensar na razão de sua sina.
Tem razão, em parte: nada ensina,
esclarece ... Aquilo que há de vir

não será logos ou pensamento.
Não! Habita o baú dos lamentos,
das cinzas espalhadas na estrada.
Sua vida ... imagino ... sim: é amada.


quinta-feira, 19 de março de 2020

COVID 19



Espero sinais de vida
por onde quer que, hoje, eu vá.
Tudo no mundo convida
a correr, lutar, ganhar ...

Porém (não entendo por quê),
mesmo quando estamos fortes,
quando a sina é só viver,
nos bate a angústia da morte.

A alegria é só ilusão?
E o mundo, um lugar deserto?
Sim, pois os planos se vão,
se acabam ... que há, aqui, de certo?

Hoje, a vida para, e espera.
e a arrogância nos dá um tempo.
Sim! Somos nada, deveras!
Somos pluma, pó, lamento.

Aqui, andarilho, na praça,
passo por poucas pessoas.
Onde estão? Todos em casa,
a esperar as coisas boas

prometidas ... Ilusões ...
Sim. O fato é que nós todos,
nossas ânsias, as paixões,
daremos um tempo. Tolos,

agora esperamos. Nós,
amantes dos carnavais,
hoje acordamos a sós
conosco. Sim! Nada mais!

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

O POETA E A FESTA


O poeta e a festa


A noite caiu cálida,
sem alucinados sons
nem ofuscantes signos:
só conversa jogada,
olhares discretos,
vida que se espalha
e se ajeita no tempo.

A moça bonita tenta
falar mais que os olhos,
sorrir, alçar qualquer voo ...
Esconde alguma coisa,
coloca atrás dos dentes,
e tenta voltar pra noite.

O velho solitário
trava um diálogo com o garçom.
A esposa quieta só observa
a noite a se desvelar;
às vezes fita o esposo
e tenta escutar o que lhe diz.

Pobre do cronista,
com tantos encontros,
se vê só, ele e a noite ...
Quem sabe um raio novo,
um sibilar intruso, um grito ...
No mais, um flerte com a noite...
e um gole ... outro ...


quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

LUNÁTICOS CANTANTES


Quando a vida navega
por paisagens áridas
e escuras,
andarilhos resignados,
frágeis guerreiros,
lunáticos cantantes
somos todos aqueles
que ousamos andar com ela.
Somos arautos do absurdo,
religiosos do trágico.
Somos personagens sensatos
(únicos, iluminados):
aqueles que seguem
a única viagem possível.

TEU ODISSEU



Teus olhos,
como a noite escura,
me fazem perder o rumo.

Tua boca,
qual canto de sereia
me atira ao mais longínquo
paraíso de perfumes e melodias.