segunda-feira, 5 de junho de 2023

VIVENDO

S ou a porta da casa antiga, descorada.
I mpassível arco. Pedaço comum na rua
M anchada e acidentada de histórias.

V olta e meia, reviro-me em lembranças:
I ngrato ao tempo, não sinto, não festejo.
V ivo apenas! Navegante de angústias,
E ncaro as pedras e os ventos contrários.
N ada desprezo, mas nada fica: ando e ando!
D o mundo carrego a sorte, o arrojo ... poeira.
O  dia é alento. A noite, poesia. A vida, tempo.





sábado, 15 de abril de 2023

CENA BANAL E ENGRAÇADINHA



Um olhar despretensioso para certa cena do cotidiano; nada de novo; a vida sem grandes mistérios ou questionamentos. Bem, não exatamente! Um sinalizador que poderá passar despercebido e entrar para o rol das coisas sem importância, ou apenas engraçadinhas e curiosas para muita gente, mas não para mim. Já me disseram que sou encucado, estranho e até exagerado com tudo. Mas não importa: as coisas me acordam o tempo todo, me dão coices, me afagam, me afetam. E saio por aí falando, escrevendo, sonhando, alucinando. Afinal, que graça teria a vida se tudo fosse esperado, sem novidades ou – odeio essa palavra, mas lá vai – normal?

Bem, assim também poderei ser chamado de prolixo ou enrolador. Vou (quase) direto ao assunto. Minha netinha de dois meses na cama, com os dois cachorros da casa ao seu lado. Às vezes, lhe fazem carinhos lambidos, se encostam enquanto a percebem quieta, cheiram-na como a certificarem-se de que está bem e, o mais importante (para eles, eu acho), ameaçam atacar quem chega perto. Sim: tomam conta, literalmente, da bebezinha, a ponto de sua mãe ter de chegar de mansinho. Parecem não querer correr nenhum risco. A sua segurança é o que importa mais. 

Bobagem? “Cães são assim mesmo”. “Eles têm o instinto do cuidado com os filhotes”. “A natureza é sábia”, e paremos por aqui, para que o leitor não fuja da conversa. Eu sei que isso pode ser, perfeitamente, mais um caso de se fazer colocações previsíveis e sem qualquer novidade. Mas, eu penso que podemos tirar mais dessa cena “banal”.

Acontece que esses seres ditos irracionais estão atuando mais diretamente em defesa da vida e da natureza do que nós, os sabichões do planeta. Vivendo no mesmo mundo que nós, reconhecem um filhote, identificam sua fragilidade e dependência, percebem como pode estar sujeito a ataques e perigos. Então, partem para sua defesa e seu cuidado. Não arriscam!

Sendo parte da natureza, a reconhecem e defendem o ser pequenino e frágil, pois este também faz parte do emaranhado de vida que os envolve. Sendo menos práticos e pragmáticos que seus parentes humanos, voltam-se à preservação do pedaço mais carente e importante da natureza com que se deparam e conseguem perceber: um ser vivo e frágil, um filhotinho, um pedaço do mundo lindo e aprazível no qual vivem e que, no momento, encontra-se vulnerável. São natureza defendendo natureza; vida defendendo vida.

Humanos matam humanos por razões que não são medo ou fome. Humanos torturam, expropriam, ofendem. Os nossos cãezinhos, não! Ao contrário, velam a vida, e a defendem com o que têm de melhor: seu tempo e sua coragem. De repente, a vida do ser frágil passa a ser o fato mais importante. O mais urgente. Talvez haja, nesses animais, algum instinto desconhecido de nossa inteligência, que esteja vinculado à perpetuação da vida – de todos. Enquanto nós humanos criamos deuses, carreiras promissoras ou eternidades vinculadas ao bem e ao mal, criações nossas de cada dia, esses irracionaizinhos devem trazer nos seus DNAs a busca da vida eterna sem dor, sem riscos e sem destruição. Repito: para todos os viventes, e principalmente os mais frágeis. Quem sabe não seja isso?

Uma reflexão aparentemente sem razão ou importância. Certamente uma bobagem ou, mais que isso, um desperdício de neurônios, os quais poderiam ser mais bem usados em empreendimentos rentáveis. Uma falha no reino da vida neoliberal. Pode ser. Porém, dentro da história as coisas vão acontecendo, acontecendo. Normalmente não as tiramos da banalidade, até que, um dia, percebemos seu valor e passamos a conhecer mais do mundo e de nós. Quem sabe? Quem sabe, nossa ação racional não necessite de um empurrãozinho de seres que sempre estiveram por aqui a nos mostrar caminhos de vida boa e digna; e nem percebemos. Ninguém me tira da cabeça que, nos seus latidos protetores, avisam os invasores que: “se se atreverem a destruir a vida, vão se ver conosco”! Quem sabe não podemos aprender alguma coisa mais com essa cena banal e engraçadinha?

                                                                João Luiz Muzinatti  -  abril/2023

sábado, 18 de março de 2023

EU CAMINHANTE


Na contramão de verdades,

retilíneos, exatos, precisos,

eternos.


Morando sob tetos cinzas, 

entre peças sem lustro, foscas,

demodês. 


Achando graça em ditos banais,

joias que não cintilam,  dias comuns,

pastelões.


Pensando na alegria de Epicuro,

na inocência de Chaplin, em Nietzsche, 

Espinosa.


Degustando festas sem gala,

doces de São João, couve, cachaça, 

jaboticabeiras.


Sonhando com a vida (a mesma)

e acordando sem sobressaltos,

vagaroso.


Chorando com notas singelas, poemas, 

gols de placa, brisas perfumadas,

lembranças. 


Indiferente à indiferença 

da natureza, do acaso, da morte ...

Pacato.


Mirando luzes que me acenam,

vislumbrando (sempre) outras obras primas,

invenções. 


Querendo mais da vida, mas sabendo

que é curta, sem porquês, alucinada ...

linda.


Sabendo-me estranho (a mim mesmo),

ridículo, às vezes sábio, mortal,

único. 


Olhando pra trás, vaidoso, paciente.

Olhando pra frente, menino, arrojado,

insaciável. 


Querendo, mais que tudo, esperando,

fazendo juras às veredas, desejando, 

aceitando.


Me vendo menino, aprendiz, sonhador.

Sabendo certo o fim, como o brotar da vida.

Vivendo ...




domingo, 26 de fevereiro de 2023

DIRETAS JÁ! 1984

D ias sim, dias não, sobrevivo sem arranhão!
E  Cazuza continua, solene: "o tempo não para"!
M eu horizonte ainda é luz, promessa.
O s dias são acesos, como letreiros, chamados.
C ada passo dado, uma certeza ... ou dúvida
R edentora, sinal da liberdade de não estagnar.
A  sorte sempre lançada me acena que a vida
C ontinua, dá cartas, surpreende, resvala, revela...
I magens antigas são signos sagrados, alento,
A porte ... Um lembrete: o tempo nos cobra!



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

O QUE ESPERAR ?


O nde andam aquelas belas marcas de vida?


F ogem de mim sinais de luz nesse breu.
U ma busca imensa, desde meu sempre,
T rouxe apenas o desperto eu solitário, cantor
U ngido pela espera, a loucura das horas,
R udes sentenças que me lançam ao ponto zero.
O nde andam o arrepio, a certeza?  Cadê meu sol?



sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

CAMINHO

Meu passo-a-passo,
a roda na estrada,
ouro arrastado em terra úmida,
e as visões distantes
de tempos que nem sei
se vivi. Meu pesadelo andante
ou as imagens turvas
das viagens antigas,
pesadas, íngremes.
Um remoinho de dores
e espera, de lágrimas
e rastejar ... sujo da terra, do sol.
É a história de um sonho
que não aporta, de uma vida
a se fazer, insistir, tartamudear.
O fôlego a se arrojar,
destino a se querer, se aconchegar.
A epopeia de um andarilho
a percorrer o mundo, da cor que for,
do jeito que der ... como a vida quiser.




segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

SEGUIR


A vida se faz na dor,
no prazer,
na espera ... no instante.
Andamos o mundo
atordoados das festas
e das torturas,
do sol a castigar a carne
e do desejo
que espreita o humano.
Derrotados, voltamos à carga;
vencedores, quase sempre
tropeçamos em certezas.
E seguimos!
Nosso passo é nossa força;
alegrias, regaços eventuais.
E seguimos!
Pois a carne inventou o pensar,
e a mente se atirou
de cabeça
na estranha aventura
de acreditar.
...
Seguimos!