quarta-feira, 1 de novembro de 2023

VIVO


Joia perdida,
som descuidado da infância,
fagulha bailarina
a orientar, debandar ...
de repente voltar.

Sou filho dessa ilusão,
órfão de cada esquálido riso
ou apoteose de mentira
atirados pelo mundo,
ar postiço a inventar vida.

Ando pelo único atalho
a ser seguido, única mão
a me apontar caminhos.
Persisto e me crio ainda em festas,
nos desejos fugazes, no engano.



quarta-feira, 11 de outubro de 2023

PRAZER, JOÃO!


Que quer saber
de mim?
Sou asa ou pedra,
depende,
uma louca paixão, um desvario,
ou sabedoria,
depende do sol,
da estrada, do relógio, das ruas.

Que quer saber
de mim?
Sou pouco caso, voo no vazio,
água fresca,
depende,
uma estrela ou breu solitário,
ou busca cega,
depende do vento,
da música distante, do tempo.

Que quer saber
de mim?
(Por que?) Sou vazio,
verso perdido na calmaria,
anacronismos, mania de beleza,
ou disformidade, depende.
Tudo que mostro não me explica,
ou apenas não sou!
Depende!
Não há o que não dependa.
Não há nada aqui,
há o que fazer, inventar,
nada mais.


sexta-feira, 15 de setembro de 2023

QUE ESTRANHO


    
        “Que estranho”!

Isto já se tornou uma rotina para mim. Uma sina! Coisa de quem quer ser usuário de computadores, internet e afins. Basta começar um trabalho com o computador, e o risco aparece. Uma operação que não se completa, uma sala na qual não consigo entrar, o som que não escuto (ou o meu, que não vai a quem me espera do outro lado) ... E, de repente, após apelar aos especialistas em informática de plantão e explicar meu problema, a fala solene e rotineira: “que estranho”!

O que isso quer dizer? Bem, já analisei o fato com cuidado, e a quantidade de repetições me permitiu até teorizar sobre. Geralmente, vem em dose dupla.

Da primeira vez, a desconfiança de que eu possa ter cometido algum erro. Muitas vezes isso até acontece. Mas, nos últimos tempos, após ter me policiado para pedir socorro somente após ter tentado de tudo, é mais comum responder com “sim” às muitas perguntas sobre se eu tentei isto, aquilo, aqueloutro ... E, nesse caso, vem a outra dose: aquela que não é direcionada a mim mas à própria pessoa: “que estranho”, como a traduzir a inquietação secreta em pensamento: “acho que não tenho a menor ideia sobre o que está acontecendo”. Surge, então, a longa operação de se tentar de tudo – tudo aquilo que nem passou pela sua cabeça no momento em que pedi ajuda. E a coisa anda. Até o momento em que, depois de tudo, inclusive vários momentos de desconexão das redes (elétrica e da internet), a coisa acontece e voltamos a respirar. Agradeço muito, do fundo do coração. Percebo que a pessoa especialista sai buscando explicações sobre o que possa ter acontecido. Em clima de vitória, após minhas efusivas falas de gratidão, o ser iluminado me abandona e vai, em outra missão, socorrer outro pobre usuário.

Essa frase parece não ter pátria ou crença: é meio universal. Lembro-me de tê-la escutado pessoal e virtualmente, in loco ou a distância. Até internacionalmente – em aulas on line, nas quais percebo que as doces viagens bancadas são coisas do passado. Sempre a mesma queixa. Sempre a evocação de que a natureza, ainda que pretensamente dominada, preserva seus mistérios.

A mim, resta o consolo de que tentei, e tentarei sempre. Afinal, que banal seria a vida sem os enigmas que, ao fim e ao cabo, vêm valorizar o passe de pessoas, sistemas e equipamentos. E, não sendo um dos iluminados especialistas em informática, resta-me saber que participo, de alguma maneira, da dinâmica dessa gente. Afinal, também eu, após cada acontecimento, não tendo entendido os porquês das falhas nem os caminhos das vitórias, perplexo, tenho o sagrado direito de soltar a minha voz: que estranho!

João Luiz Muzinatti

Setembro / 2023


sexta-feira, 4 de agosto de 2023

APENAS











Sou o tal que é famoso!
Desfilo com brilho e pompa
pelas ruas.

Na grossa tintura
da multidão errante,
sou ponto cinza.

Nos engarrafamentos,
fagulha noturna
a brilhar saliente.

Pelas jornadas esportivas,
minha cor minúscula
e meu grito saltitam.

Ah! Os calçadões!
Meus leitos: qual gota,
sou molécula da correnteza.

Sou famoso pela vida: ando solto,
e componho a ópera do querer, o ser parte.
Sou o que cria, o que não é. Apenas sou.





segunda-feira, 24 de julho de 2023

ESCRITAS NOVAS


No acalanto da rua antiga,
Embalado, ainda, por toques
Iguais aos tons da velha vida,
Quis juntar canções, sem retoques,

Achando que aquelas tais rimas
Que dançavam, rodavam lindas
Em tardes quentes, convertidas
Seriam em sonhos. Ainda!

Pobre de mim! Não vi que a vida
Anda sempre em frente, não volta!
Me acenou triste a nota amiga,
Antiga. Riu-se a estrofe solta.

As músicas, as telas ... Tudo
Que vem dos sonhos, dos desejos,
Quer vida, futuro. O som mudo
Me disse: "vai, faça um gracejo,

Zomba da sorte, experimenta
Novas escritas, novos versos.
De tanta angústia, a dor aumenta,
E não: não há tempo ao reverso"!

Então, vida, vou te buscar,
Em tardes novas, novos temas.
Não tenho escolha: bora andar!
Quero só a brisa leve ... apenas!



sexta-feira, 7 de julho de 2023

A ZÉ CELSO


A s ruas eram desertas,
C aladas, como noites de insônia.
A s mãos vazias e o peito flácido.
O  sol, entretanto, te desvelou

E  te lançou no tempo.

C omo titã te atiraste,
O usado, quis inventar beleza,
R oubar do real o possível,
A tiçar mentes e braços.
C onseguiste, meu caro:
A lçaste desalento a sonho, poesia.
O  sol já se escondeu: brilhas por ti.





terça-feira, 6 de junho de 2023

PALAVRAS SOLTAS

 

Palavras soltas na tarde
vão e vêm. Correm e tropeçam,
atiram-se, perigosas, a tecer
o pensamento, os risos,
até lágrimas enxeridas,
desavisadas ou órfãs

Palavras soltas no mundo
são de ninguém. Enfeitam-se,
armam-se, esbarram ... Gritam!
Atrelam-se a liras, oboés,
teorias, guerras. São marcas
do humano. Signos, pegadas.