sábado, 18 de março de 2023

EU CAMINHANTE


Na contramão de verdades,

retilíneos, exatos, precisos,

eternos.


Morando sob tetos cinzas, 

entre peças sem lustro, foscas,

demodês. 


Achando graça em ditos banais,

joias que não cintilam,  dias comuns,

pastelões.


Pensando na alegria de Epicuro,

na inocência de Chaplin, em Nietzsche, 

Espinosa.


Degustando festas sem gala,

doces de São João, couve, cachaça, 

jaboticabeiras.


Sonhando com a vida (a mesma)

e acordando sem sobressaltos,

vagaroso.


Chorando com notas singelas, poemas, 

gols de placa, brisas perfumadas,

lembranças. 


Indiferente à indiferença 

da natureza, do acaso, da morte ...

Pacato.


Mirando luzes que me acenam,

vislumbrando (sempre) outras obras primas,

invenções. 


Querendo mais da vida, mas sabendo

que é curta, sem porquês, alucinada ...

linda.


Sabendo-me estranho (a mim mesmo),

ridículo, às vezes sábio, mortal,

único. 


Olhando pra trás, vaidoso, paciente.

Olhando pra frente, menino, arrojado,

insaciável. 


Querendo, mais que tudo, esperando,

fazendo juras às veredas, desejando, 

aceitando.


Me vendo menino, aprendiz, sonhador.

Sabendo certo o fim, como o brotar da vida.

Vivendo ...




domingo, 26 de fevereiro de 2023

DIRETAS JÁ! 1984

D ias sim, dias não, sobrevivo sem arranhão!
E  Cazuza continua, solene: "o tempo não para"!
M eu horizonte ainda é luz, promessa.
O s dias são acesos, como letreiros, chamados.
C ada passo dado, uma certeza ... ou dúvida
R edentora, sinal da liberdade de não estagnar.
A  sorte sempre lançada me acena que a vida
C ontinua, dá cartas, surpreende, resvala, revela...
I magens antigas são signos sagrados, alento,
A porte ... Um lembrete: o tempo nos cobra!



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

O QUE ESPERAR ?


O nde andam aquelas belas marcas de vida?


F ogem de mim sinais de luz nesse breu.
U ma busca imensa, desde meu sempre,
T rouxe apenas o desperto eu solitário, cantor
U ngido pela espera, a loucura das horas,
R udes sentenças que me lançam ao ponto zero.
O nde andam o arrepio, a certeza?  Cadê meu sol?



sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

CAMINHO

Meu passo-a-passo,
a roda na estrada,
ouro arrastado em terra úmida,
e as visões distantes
de tempos que nem sei
se vivi. Meu pesadelo andante
ou as imagens turvas
das viagens antigas,
pesadas, íngremes.
Um remoinho de dores
e espera, de lágrimas
e rastejar ... sujo da terra, do sol.
É a história de um sonho
que não aporta, de uma vida
a se fazer, insistir, tartamudear.
O fôlego a se arrojar,
destino a se querer, se aconchegar.
A epopeia de um andarilho
a percorrer o mundo, da cor que for,
do jeito que der ... como a vida quiser.




segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

SEGUIR


A vida se faz na dor,
no prazer,
na espera ... no instante.
Andamos o mundo
atordoados das festas
e das torturas,
do sol a castigar a carne
e do desejo
que espreita o humano.
Derrotados, voltamos à carga;
vencedores, quase sempre
tropeçamos em certezas.
E seguimos!
Nosso passo é nossa força;
alegrias, regaços eventuais.
E seguimos!
Pois a carne inventou o pensar,
e a mente se atirou
de cabeça
na estranha aventura
de acreditar.
...
Seguimos!





segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

MEU REI

P ensava eu: o mundo é lindo! A vida é bola!
E  ele aparecia. Meu peito disparava! - Deus!
L onge de tristezas, só via caras felizes, gritos.
É poca distante. Aprendi a ser feliz. Obrigado!



quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

FASCISMO

 

Ode às falas distorcidas,
vivas ao desconhecimento!

A praça é dos "de bem",
dos que exibem músculos,
dos piedosos.

O falso adornado é límpido;
a Verdade, divina e revelada,
paira além do visível:
torpes os que se arrojam,
novos Brunos,
às matas inóspitas
da ciência.

Forte é a sedução das armas,
de repente redentoras,
contra ideias outras,
outras peles,
outros versos de amor.

Fracos e vis são os outros,
perdidos, promíscuos,
pecadores ao bem e à fé.
Escórias, seu destino é o nada!

Vivas à dor
do que canta outras notas,
ri de outras graças,
segue por outras bandas.
Seu caminho é lama,
seu regalo,
a morte!