quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

NINGUÉM

 

Sou ninguém!
Sou a imagem que se borra
nas ruas, andarilha a se mover
feito cisco ou mosca, gota errante,
cor perdida entre os tons da manhã.
Frágil bruma que qualquer vento desfaz,
mutante e sem qualquer razão de ser,

Sou ninguém!
A palavra dita que não se ouve,
a ideia que, de tão banal, nunca voa,
pensamento ora alucinado, ora pobre e débil.
Lamento ou vantagem cantada, professada,
a entrar em parafuso, na dor de um bar qualquer,
sem plateia que não a mente que nada engendra.

Sou ninguém!
Solitário dentro da massa, obstáculo,
pedra pisoteada. Parte na forma do todo
sem que possa alguém se aperceber,
gás neutro a compor a atmosfera,
sem me dar conta. Ando altivo, orgulhoso,
sendo o único a me ver no tempo, na vida.

Sou ninguém!
Ah! Mas que divina condição! Vivo liberdade!
Sou desimportante, desinteressante, sem sal!
Não daria boa manchete, nem moveria gentes.
Ninguém me há de querer como exemplo,
pois a vida só me pôs para seguir. Que bom!
Da vida tiro o que me cabe. E isso não me tiram.




quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

CRIANÇA


C aem gotas de orvalho ... ou notas de opereta
R egando meu desejo de vida, minha razão.
I nvoco deuses, epopeias, poemas antigos,
A casos e planos marcados na história, conflitos.
N o calor da vida, tento me dar conta, entender ...
C ada dia, encontro-me entre raso e alegre:
A  vida aí rebrilha, e alerta: poderia ser diferente.




segunda-feira, 13 de novembro de 2023

BREVE INTROSPECÇÃO

 

Passado! Ah, meus sonhos pueris,
minhas voltas largas pelo tempo,
meus célebres enganos ensaiados,
minhas dores reais ... meus pés
acorrentados, atados  à cidade,
a andar qual obreiros quietos,
querendo o mesmo, cantando
o de sempre, o banal, o permitido.

Havia sol, mas a dor do não,
escancarada nas canções,
nos voos rasantes, no silêncio,
isso e muito mais, a travar o passo,
dizia: devagar que a vida é pouca,
o tempo espreita e os ventos,
de tão livres, falantes e heroicos,
também matam e enterram.

Um desejo de poeta tolo,
desses que não se confessa,
pairava entre aprendizados,
crenças e máximas canonizadas.
Havia questões sem sentido
querendo luz, mas sabendo-se
tolas, e desejando não aparecer ...
até mais: desejando não ter nascido.

Passado! Ah, minha vida! Andarilha!
O que brotou de tudo isso? Um eu?
Aquele tal que se equilibrou, dançou,
se embrenhou nas falas santas,
nos versos da moda, nos bons modos?
Onde a vida deu a volta? Quando morri?
Quando foi que um outro nasceu
daquilo que foi vivido quase sem viver?

"A vida continua", dizem! "Não pare"!
Não, não paro: a vida se inventa, eu sei,
o sol nunca é o mesmo: também é outro:
há explosões novas, raios intrusos.
Não há razão pra parar, nem pensar.
Afinal, que me resta? Viver, querer,
amalgamar matéria, pensamento, dor,
amor ... Fazer o novo ... com o que resta. 




quarta-feira, 1 de novembro de 2023

VIVO


Joia perdida,
som descuidado da infância,
fagulha bailarina
a orientar, debandar ...
de repente voltar.

Sou filho dessa ilusão,
órfão de cada esquálido riso
ou apoteose de mentira
atirados pelo mundo,
ar postiço a inventar vida.

Ando pelo único atalho
a ser seguido, única mão
a me apontar caminhos.
Persisto e me crio ainda em festas,
nos desejos fugazes, no engano.



quarta-feira, 11 de outubro de 2023

PRAZER, JOÃO!


Que quer saber
de mim?
Sou asa ou pedra,
depende,
uma louca paixão, um desvario,
ou sabedoria,
depende do sol,
da estrada, do relógio, das ruas.

Que quer saber
de mim?
Sou pouco caso, voo no vazio,
água fresca,
depende,
uma estrela ou breu solitário,
ou busca cega,
depende do vento,
da música distante, do tempo.

Que quer saber
de mim?
(Por que?) Sou vazio,
verso perdido na calmaria,
anacronismos, mania de beleza,
ou disformidade, depende.
Tudo que mostro não me explica,
ou apenas não sou!
Depende!
Não há o que não dependa.
Não há nada aqui,
há o que fazer, inventar,
nada mais.


sexta-feira, 15 de setembro de 2023

QUE ESTRANHO


    
        “Que estranho”!

Isto já se tornou uma rotina para mim. Uma sina! Coisa de quem quer ser usuário de computadores, internet e afins. Basta começar um trabalho com o computador, e o risco aparece. Uma operação que não se completa, uma sala na qual não consigo entrar, o som que não escuto (ou o meu, que não vai a quem me espera do outro lado) ... E, de repente, após apelar aos especialistas em informática de plantão e explicar meu problema, a fala solene e rotineira: “que estranho”!

O que isso quer dizer? Bem, já analisei o fato com cuidado, e a quantidade de repetições me permitiu até teorizar sobre. Geralmente, vem em dose dupla.

Da primeira vez, a desconfiança de que eu possa ter cometido algum erro. Muitas vezes isso até acontece. Mas, nos últimos tempos, após ter me policiado para pedir socorro somente após ter tentado de tudo, é mais comum responder com “sim” às muitas perguntas sobre se eu tentei isto, aquilo, aqueloutro ... E, nesse caso, vem a outra dose: aquela que não é direcionada a mim mas à própria pessoa: “que estranho”, como a traduzir a inquietação secreta em pensamento: “acho que não tenho a menor ideia sobre o que está acontecendo”. Surge, então, a longa operação de se tentar de tudo – tudo aquilo que nem passou pela sua cabeça no momento em que pedi ajuda. E a coisa anda. Até o momento em que, depois de tudo, inclusive vários momentos de desconexão das redes (elétrica e da internet), a coisa acontece e voltamos a respirar. Agradeço muito, do fundo do coração. Percebo que a pessoa especialista sai buscando explicações sobre o que possa ter acontecido. Em clima de vitória, após minhas efusivas falas de gratidão, o ser iluminado me abandona e vai, em outra missão, socorrer outro pobre usuário.

Essa frase parece não ter pátria ou crença: é meio universal. Lembro-me de tê-la escutado pessoal e virtualmente, in loco ou a distância. Até internacionalmente – em aulas on line, nas quais percebo que as doces viagens bancadas são coisas do passado. Sempre a mesma queixa. Sempre a evocação de que a natureza, ainda que pretensamente dominada, preserva seus mistérios.

A mim, resta o consolo de que tentei, e tentarei sempre. Afinal, que banal seria a vida sem os enigmas que, ao fim e ao cabo, vêm valorizar o passe de pessoas, sistemas e equipamentos. E, não sendo um dos iluminados especialistas em informática, resta-me saber que participo, de alguma maneira, da dinâmica dessa gente. Afinal, também eu, após cada acontecimento, não tendo entendido os porquês das falhas nem os caminhos das vitórias, perplexo, tenho o sagrado direito de soltar a minha voz: que estranho!

João Luiz Muzinatti

Setembro / 2023


sexta-feira, 4 de agosto de 2023

APENAS











Sou o tal que é famoso!
Desfilo com brilho e pompa
pelas ruas.

Na grossa tintura
da multidão errante,
sou ponto cinza.

Nos engarrafamentos,
fagulha noturna
a brilhar saliente.

Pelas jornadas esportivas,
minha cor minúscula
e meu grito saltitam.

Ah! Os calçadões!
Meus leitos: qual gota,
sou molécula da correnteza.

Sou famoso pela vida: ando solto,
e componho a ópera do querer, o ser parte.
Sou o que cria, o que não é. Apenas sou.